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Artigo 1 - As raízes profundas da Gestão Autoritária em Portugal

Data de Publicação: 12 setembro 2020

Portugal foi, desde o início da sua existência e ao longo dos séculos, um país reinado e dominado por estruturas organizacionais piramidais, o que na prática significou que nos habituámos a viver em hierarquias extremamente segmentadas em que a pessoa acima comanda e controla quem está abaixo.

Comecemos pelas hierarquias quem nos governaram e geriram durante séculos: as Hierarquias militares em que os Romanos tiveram uma indiscutível influência no nosso país – Existirá alguma estrutura militar mais segmentada que Legião Romana? – até uma ditadura militar que terminou há menos de 100 anos, a Hierarquia eclesiástica cuja influência termina no século XIV, a Monarquia até inícios do século 20 e finalmente a Política até 1975.

Mais do que um simples hábito, a tradição de hierarquização no nosso país é indiscutível, podemos obviamente discutir o peso que tem nos nossos tempos - maior ou menor consoante o que queremos ver e analisar - mas não podemos deixar de refletir quão culturalmente permanece instalada nos dias de hoje. Orgulhemo-nos ou não, é normal que de geração em geração, de forma mais ou menos consciente, passemos esta relação este gestor e gerido e os seus “papéis” expectáveis. Temos vindo a ser educados para tal.

E curiosamente o nosso sistema de ensino acaba por enfatizar esta tradição... devem-se estar a questionar: mas como? 

Então, está estudado e comprovado que os primeiros 7 anos de vida de uma criança são fundamentais na formação da sua personalidade, os pais têm um papel fundamental na forma como as mesmas “são geridas” ou “lideradas” tendo este período tem um tremendo impacto na forma como lidamos com os outros. Ao mesmo tempo, nesta fase da nossa vida iniciamos o nosso contacto com o sistema educativo e convivemos com as figuras mais presentes neste contexto - os Professores.

O sistema educativo regulado pelo Ministério da Educação, Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior tem vindo a definir (sobretudo no sector público) o papel do Professor como um profissional que tem a responsabilidade de partilhar em aula, para todos os alunos, matérias já pré-definidas que se encontram em livros que se repetem ano após ano. No final, são pedidos “trabalhos de casa” de preparação para os testes/exames, que são os momentos críticos de avaliação que permitem diferenciar e avaliar os alunos (entre excelentes a medíocres), em que apenas nesse momento se reconhece e diferencia o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos individualmente. O sistema impõe e o professor cumpre senão sai do sistema.

E o aluno? O aluno consente (na sua generalidade) e para seu desenvolvimento/reconhecimento converge com o sistema. Como é o seu dia-a-dia?

Fundamentalmente caracterizado pela audição (ou não) da partilha da matéria feita pelo professor; dificilmente questiona o que está a ser partilhado e se o fizer, maioritariamente a resposta do professor será uma repetição do que já foi dito; tira apontamentos (ou não); faz os exercícios (ou não); e depois estuda (ou não) para os testes/exames decorando (ou não) o que vem nos livros ou nos seus apontamentos. Depois, dá o seu melhor nesses momentos críticos de avaliação (com ou sem cábulas).

Nota que o “ou não” está intimamente ligado à personalidade do aluno e rejeição do regime.

A falta de acompanhamento individualizado e customizado é marcante, originando uma redução do envolvimento do aluno no seu processo de aprendizagem podendo inclusive levar à necessidade de corromper o sistema (através do uso de cábulas, por exemplo).

Estamos perante um sistema que não envolve os alunos, apenas os segmenta.

Mediante isto entramos no mercado de trabalho e temos esta bagagem histórica connosco, o que consideramos expectável de NÓS?

- o Eu que gere – mandar, pensar, tomar decisões, dar indicações, indicar o caminho e estabelecer a estratégia e os objetivos;

- o Eu que é gerido – é mandado, não precisa de pensar, ouve as decisões ou recebe as informações, segue orientações, entra no caminho desejado pelo gestor e cumpre os objetivos; (ou não!)

Estes dois “EUS” acabam por “criar” um sistema (organizacional) que se caracteriza pela centralização da decisão no gestor, desumanização, burocratização, competição não-saudável e foco no curto prazo.

Fará sentido? Pelo menos que faça reflectir... :)

Considero que estamos perante uma das ortodoxias mais antigas que temos e que é replicada naturalmente nas nossas organizações.

Num próximo artigo partilharei ideias como podemos mudar já este(s) sistema(s) e exemplos atuais de lideranças totalmente participativa e colaborativa.

Até já!

Bruno Leonardo

BeBolder Founder